Um caso complexo conduzido com precisão cirúrgica e respeito à dignidade da paciente
Tudo começou quando Dona M., uma senhora de 90 anos, chegou ao consultório com uma queixa persistente: uma lesão dolorosa e malcheirosa, sangrante no assoalho da boca, acompanhada por dentes amolecidos e um nódulo cervical endurecido. Sintomas alarmantes que, para olhos experientes, já indicavam um possível câncer bucal avançado.

Foto de Câncer de Boca Avançado
Na avaliação clínica inicial, observou-se uma lesão infiltrativa com características sugestivas de carcinoma espinocelular, a neoplasia maligna mais comum da cavidade oral. Foi realizada biópsia incisional no próprio consultório e iniciado um protocolo de estadiamento completo, incluindo tomografia computadorizada, ressonância magnética e panendoscopia (laringoscopia, nasofibroscopia e endoscopia digestiva alta), com o objetivo de mapear toda a mucosa da via aerodigestiva superior.
Mas havia um agravante: o tumor já havia se infiltrado nos ossos e comprometia a mandíbula, exigindo não apenas a remoção da lesão, mas também a reconstrução óssea da face. Uma cirurgia de alta complexidade que a maioria dos profissionais evitaria em pacientes dessa idade.
A recusa à mutilação
Dona M. já havia consultado outro cirurgião, que propôs uma abordagem: a remoção do tumor sem reconstrução. Isso implicaria na retirada do assoalho da boca e de parte significativa do contorno mandibular, resultando em uma deformidade facial importante.
A paciente seria privada do mento, com prejuízo severo à função oral e à estética facial - uma condição que, inclusive, remete à aparência caricata do personagem Andy Gump, conhecido por sua face sem mandíbula. A perspectiva de viver com esse grau de desfiguração era inaceitável para Dona M., não apenas pelas implicações funcionais, mas também pelo profundo impacto emocional que tal alteração teria sobre sua identidade e qualidade de vida.
A paciente recusou o procedimento mutilante. Apesar da idade avançada, seu estado clínico geral era bom, com histórico apenas de diabetes bem controlado. Sua recusa à proposta anterior não foi por vaidade, mas por preservar sua autonomia, sua imagem e, sobretudo, sua dignidade.
Planejamento cirúrgico milimétrico: a reconstrução como arte
A Dra. Christiana Vanni propôs um plano audacioso e inovador: a retirada completa do tumor, com margens de segurança, esvaziamento cervical bilateral e reconstrução microcirúrgica imediata utilizando retalho livre da fíbula (osso da perna), integrando pele, músculo e osso.
Esse tipo de reconstrução exige domínio técnico absoluto e um planejamento digital prévio meticuloso.
Um dos grandes diferenciais deste caso foi a utilização de tecnologia de planejamento cirúrgico tridimensional, realizada previamente com base em exames de imagem de alta definição. Por meio de softwares específicos, foi possível simular os cortes ósseos exatos na mandíbula e na fíbula da paciente, determinar as angulações ideais e moldar as placas de titânio sob medida para fixação.
Essa etapa minuciosa permitiu transformar uma cirurgia complexa em um procedimento altamente controlado, otimizando os resultados funcionais e estéticos.
O uso de guias cirúrgicos impressos em 3D também conferiu maior precisão às osteotomias e o posicionamento dos segmentos ósseos, garantindo uma reconstrução anatômica e segura. Uma verdadeira cirurgia de "lego", como a equipe gosta de descrever.
Também foram instalados implantes dentários durante o procedimento, uma medida preventiva necessária, já que a paciente vai necessitar de radioterapia complementar, o que inviabilizaria implantes futuros por risco de osteorradionecrose.
Aspectos Técnicos e Desafios Cirúrgicos
A reconstrução mandibular com retalho de fíbula envolve desafios significativos. A cirurgia exige prévia avaliação vascular por arteriografia (quando possível) para assegurar a viabilidade dos vasos do membro inferior, evitando complicações como isquemia de perna ou má qualidade dos vasos a serem usados. Além disso, a execução da anastomose microvascular requer preservação cuidadosa dos vasos cervicais receptores durante o esvaziamento, etapa crítica para o sucesso da reconstrução.

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Cirurgia de reconstrução de mandíbula
O uso de tecnologia de planejamento 3D permitiu redução significativa do tempo cirúrgico, fator fundamental em pacientes idosos, e maior precisão na simetria mandibular e encaixe das placas.
A vitória da técnica, da empatia e da vida
A cirurgia foi realizada com sucesso, totalizando mais de 13 horas de procedimento contínuo, com monitoramento intraoperatório rigoroso da perfusão e da viabilidade do retalho. A anastomose microvascular - união precisa entre vasos sanguíneos do membro inferior e do pescoço - foi executada com excelência, assegurando a vitalidade do enxerto.
Por trata-se de uma cirurgia curativa de alta complexidade, foi conduzida de forma simultânea pelas equipes de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Cirurgia Plástica Reconstrutora e Bucomaxilofacial. Contamos ainda com o suporte essencial de anestesistas especializados, instrumentadores experientes, equipe clínica, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e demais profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar.
Dona M. se recupera bem, com controle da dor, sem complicações vasculares e com plena aceitação estética do resultado. Mais do que o tratamento oncológico adequado e salvar uma vida, a Dra. Christiana devolveu à paciente algo ainda mais valioso: a capacidade de se ver no espelho e reconhecer sua própria dignidade, com possibilidade de restabelecer suas funções como fonação, deglutição, ventilação/respiração.
Este é um dos muitos exemplos de como a cirurgia oncológica pode ser feita com empatia, técnica e, acima de tudo, respeito à história de cada paciente.
Casos como o de Dona M. demonstram que a cirurgia oncológica de alta complexidade, mesmo em pacientes idosos, pode - e deve - ser conduzida com excelência técnica, planejamento minucioso e, acima de tudo, respeito à individualidade.
Comentários1
Agda Marques Barbosa
19/09/2026
Bom dia!! Sou estudante de odontologia, atualmente cursando o 6º período, atualmente estou fazendo um trabalho sobre, Reconstrução mandibular após a ressecção de tumores: Aplicação do planejamento cirúrgico virtual, impressão 3D e biomateriais personalizados, gostaria de saber se eu poderia usar este caso, demonstrando as etapas e os desafios da reconstrução mandibular. Aguardo retorno, obrigada!
Dra. Christiana Vanni
Tudo bem, se vc der credito aos participantes e detentores de imagem, pode sim. Coloca o link do site e nome dos envolvidos.
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Texto escrito por:
Dra. Christiana VanniMédica Especialista em Cirurgia de Cabeça e Pescoço
CRM/SP 120.060 - RQE 31.305
A Dra. Christiana Vanni é Médica Cabeça e Pescoço especialista em cirurgia e tratamentos oncológicos pela FMABC, pós graduada em Cirurgia Robótica de Cabeça e Pescoço pelo Hospital Israelita Albert Einstein, possui título de Doutorado pela FMUSP.
Cirurgia Robótica, Reconstrução e Tratamentos Oncológicos
Excelência em diagnósticos e tratamentos precisos, com técnicas cirúrgicas modernas e tecnologia de ponta.
Atendimento particular nos consultórios da Vila Mariana e Itaim Bibi e também na modalidade on-line, para pacientes em todo o Brasil e exterior. Credenciada nos melhores hospitais de São Paulo/SP, com ampla atuação na cidade.
Perfil: Conheça a Dra. Christiana Vanni
Currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/0015992915263064
Doctoralia: https://www.doctoralia.com.br/christiana-vanni
Linkedin:
@drachristianavanni











